Eu não entendia por que isso não era utilizado em nossa escola, pois prendeu tanto a nossa atenção que as crianças nem respiravam direito enquanto a história era contada.
Também percebi uma certa dificuldade em encontrar livros do gênero em São Paulo; pelo menos na época de minha adolescência não havia internet e nós tínhamos acesso apenas aos clássicos disponíveis em bibliotecas.
Porém, mesmo com as facilidades que a vida moderna nos trouxe, esse gênero literário, Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro, ainda é pouco difundido no ambiente escolar. Na minha humilde opinião, acho ser um preconceito tratá-la como uma "subliteratura", pois é rica dentro de sua simplicidade e é ótima para trabalhar com crianças (dito por uma criança que teve o privilégio de conhecê-la).
O trabalho com literatura de cordel na educação infantil pode dialogar com as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), especialmente no campo de experiência "escuta, fala, pensamento e imaginação" ao envolver oralidade, ritmo, rimas e valorização da cultura brasileira.
Eu honestamente acredito que a literatura de cordel aproxima a criança da leitura por meio da musicalidade, da simplicidade e da forte ligação entre texto e imagem, ao transformar o ato de ler em uma atividade lúdica e culturalmente rica.
Realizando algumas pesquisas sobre o uso do cordel na alfabetização infantil, encontrei vários trabalhos de conclusão de cursos, artigos e até um projeto que achei fantástico no site da Fundação Banco do Brasil, realizado pela Associação Ludocriarte de São Sebastião, região administrativa do Distrito Federal, que gerou o livro de cordel Nosso Pé de Cordel Encantado.
Quando decidi escrever o livro, eu havia acabado de resgatar um gatinho de rua. Já tinha outros três gatos em casa e, quem convive com gatos, sabe que a adaptação de um novo integrante nem sempre é simples. Enquanto acompanhava esse processo, comecei a pensar também nos irmãozinhos daquele pequeno gato e na mãezinha que, provavelmente, havia ficado para trás.
Foi então que uma ideia começou a tomar forma: e se eu unisse duas coisas pelas quais sempre tive grande entusiasmo, gatos e literatura de cordel, em um livro para crianças?
Então decidi criar um livro de colorir em que uma história é contada por meio de versos de cordel e acompanhada por ilustrações de gatinhos. Mais do que criar uma atividade para colorir, minha intenção era proporcionar às crianças uma experiência que reunisse leitura, imaginação e criatividade, ao mesmo tempo em que despertasse nelas um sentimento de amor e respeito pelos animais e incentivasse a adoção responsável.
Minha relação com o cordel, entretanto, continua sendo a de uma apaixonada por esse gênero. Não me considero cordelista. Sou uma entusiasta de uma forma de expressão tão envolvente e tão rica da nossa cultura nacional que, desde criança, conseguiu prender completamente a minha atenção.
Esse interesse me levou, inclusive, a aprofundar meus estudos. Em março de 2026, concluí o curso de extensão universitária on-line "Literatura de Cordel: Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro", com carga horária de 160 horas, pela Faculdade Aberta do Nordeste da Fundação Demócrito Rocha.
Talvez seja justamente por ter chegado ao cordel como espectadora, e não como educadora, que eu continue acreditando tanto em seu potencial para aproximar as crianças da leitura. Afinal, antes de pensar no cordel como recurso pedagógico, eu o conheci simplesmente como uma criança que ficou fascinada ao ouvir uma história sendo contada.
E é esse encantamento que eu gostaria de compartilhar com outras crianças por meio de A Peleja dos Gatinhos pela Família.
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