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Mostrando postagens com o rótulo contos

Pesquisas e leituras - "A sina dos seis monçoeiros" - Parte I

  Vi um concurso sobre lendas do Brasil e decidi participar.  Comecei a pesquisar sobre o Rio Tietê e logo encontrei muitas histórias. Uma delas, em especial, chamou muito a minha atenção: As monções foram expedições fluviais que, entre a segunda década do século XVIII e a primeira metade do século XIX, mantiveram contato entre a Capitania de São Paulo e a Capitania de Mato Grosso. Em 1720, houve um comboio em que todos faleceram no trajeto. No decorrer desse ano, ninguém que pegou o trajeto do rio Tietê chegou vivo ao destino.  Além de pesquisar na internet sobre o assunto, li o livro *Relatos Monçoeiros*. Dentre vários trechos marcados, um me chamou a atenção:  "As novas da fertilidade das minas do Cuiabá alucinam as populações. Terra do ouro onde tão vil é o metal que os descobridores, a passarinhar, atiram com os grãos amarelos, para poupar chumbo!" Nossa! Como assim?! Não é à toa que muitos paulistas se aventuraram atrás do vil metal. Comecei a escrever, mas a h...

A sina dos seis monçoeiros - Sobre os Paiaguás

  ...     Depois de uns dias esperando em vão que mais monçoeiros chegassem, resolvemos seguir viagem, rogando a proteção de Nosso Senhor Bom Jesus do Cuiabá e de Nossa Senhora da Penha. Feitas as orações, todos os viajantes foram para o porto e se meteram nos batelões. Mal havíamos começado a jornada e já ouvíamos os Paiaguás ao longe! Nos aprontamos para o ataque, pois eram ótimos nadadores e homens de muita força; era impossível vencê-los no rio. Soldados valorosos que tentavam defender sua terra — hoje bem os compreendemos — mas ataque nenhum nos veio. Tocamos avante, sempre com o ouvido atento a qualquer rumor na mata ou no rio, e chegamos em Registro Velho. Lá, deram-nos conta do paradeiro dos Paiaguás. Ajeitamo-nos e seguimos jornada ao amanhecer, mas melhor fora que lá tivéssemos ficado: fomos atacados, e muitos dos nossos monçoeiros sucumbiram, inclusive um dos bem afortunados, que percebeu que fortuna nenhuma era capaz de amansar a fúria dos indígenas. ...

A sina dos seis monçoeiros - O triste fim de Bartolomeu

  ... — Com os dois companheiros dormindo, pude mirar com mais atenção a correnteza do rio, o céu que estava claro naquela noite fria de abril ou maio; tanto tempo havia passado que já não era dado saber ao certo. — E, voltando-se para os três homens que ainda respiravam, Bartolomeu questionou: — Em que dia nos achamos?  — Dia dez de abril de 1982. — Disse o seu avô Anselmo.  — Ora pois! Mais de duzentos anos de nossa partida! Há quanto tempo temos vagado por esse rio sem descanso!  Todos ficaram perplexos com essa revelação, e então Bartolomeu recomeçou:  — Como eu dizia: a noite estava fria e limpa. Podia-se ver o Tapirapé, o caminho das estrelas, como os indígenas chamavam a Via Láctea. Estava tão formoso e tão calmo; o rio corria em sossego. Cheguei a sentir uma profunda paz. Foi quando avistei um ser mágico na beira do rio: uma formosa mulher de pele morena, cabelos longos, pretos e lisos. Ela estava se aproximando do acampamento, mas parecia pairar, alheia...

A sina dos seis monçoeiros - O avistamento da Pirataca

     Casimiro parou por um instante olhando para os companheiros de viagem e então continuou: — Era nossa quarta jornada. Levávamos cargas para barganhar com os mineradores que lá se achavam. Em nosso comboio, desta vez, iam dez batelões, sem passageiro algum em nossa canoa. A viagem levaria alguns meses. Oh, se soubesse que seria a derradeira, teria aproveitado um tanto mais no porto de Araritaguaba, o porto feliz. — Todos os homens acenaram positivamente. — Então, nossos desassossegos começaram a surgir neste trecho onde nos achamos, daí nossa recepção tão truculenta. O primeiro mau presságio foi a vista da Pirataca. — Pirataca?! — Munduco perguntou. — Sim, uma serpente descomunal passando lentamente por debaixo dos batelões! Vicente foi o primeiro a dar-se conta, nos avisando com cautela. Pelo que, já com as armas em punho, aguardamos o ataque. Percebendo que seria uma grande peleja, talvez, o monstro seguiu adiante sem atacar barca alguma do comboio. A Pirataca era um...

A sina dos seis monçoeiros

  Com o falecimento do meu avô, senhor Anselmo Pelotas, a família toda precisou se mobilizar para resolver assuntos de inventário. Dentre os bens, constava uma propriedade beira-rio no Rio Tietê, onde o velho, exímio pescador e, com isso, detentor de várias histórias para contar, gostava de passar seus dias de aposentadoria lembrando da época em que o rio era navegável e havia a possibilidade de realizar festejos e pescarias, reunindo amigos e familiares. Lembro-me que adorávamos a época das férias escolares, pois sempre passávamos o período na casinha vermelha de tijolos aparentes e brincávamos livremente pelo terreno, que era muito grande, considerando o espaço que tínhamos para brincar durante o resto do ano. Então, durante os meses de julho, dezembro e janeiro, lá ia a garotada — aquele monte de criança com uma energia enorme —, e os velhos adoravam! Minha avó, dona Constança Pelotas, cozinhava várias comidas de sítio: bolos, doces, suco de fruta colhida do pé. Só brigava com ...