Matinta Pereira (ou Matinta Perera) é uma das lendas mais famosas do folclore amazônico. Ela conta a história de uma velha feiticeira que, durante a noite, transforma-se em um pássaro agourento, muitas vezes identificado popularmente como a rasga-mortalha, que pousa sobre os telhados. Para fazê-la ir embora, o morador deve prometer-lhe uma oferenda, como tabaco, café ou cachaça. No dia seguinte, ela surge na forma de uma mulher desconhecida para cobrar a promessa. Caso ela não seja cumprida, a tradição diz que desgraças podem atingir a família.
Quando está para morrer, a Matinta pergunta: "Quem quer? Quem quer?" Se alguém responder "eu quero", pensando em se tratar de alguma herança, recebe na verdade a sina de se transformar em Matinta Perera.
Assim como acontece com diversas lendas do folclore brasileiro, não existe uma única versão da Matinta Perera. Sua aparência, seus poderes e até sua origem variam conforme a comunidade e a região da Amazônia onde a história é contada. Em alguns lugares, ela é uma velha, uma feiticeira, um espírito, apenas um pássaro, uma mulher que se transforma em ave ou ainda uma entidade protetora da floresta.
Raízes da Lenda
Mitologia Indígena: Para antigos povos da floresta, espíritos de pessoas mortas ou pajés se transformavam no pássaro Tapera naevia (conhecido popularmente como saci, martim-pererê ou matinta-pereira) para visitar os vivos ou buscar vingança.
Origem do Nome: A origem exata do nome ainda é discutida pelos pesquisadores. Uma das hipóteses relaciona o termo a palavras de origem indígena associadas ao canto da ave e aos seres encantados da floresta.
A grafia também varia conforme a tradição oral e os registros escritos, sendo comuns as formas Matinta Perera e Matinta Pereira.
Evolução do Mito: Com o tempo, a tradição oral misturou crenças nativas com arquétipos de velhas feiticeiras, transformando-a na figura de uma mulher idosa que vaga à noite assobiando e exigindo oferendas de fumo ou café.
Matinta Perera na atualidade
Símbolo de Proteção Ambiental: Em comunidades tradicionais, a entidade é vista como um espírito da floresta que castiga quem destrói a natureza e desrespeita os animais.
Série Netflix: A lenda ganhou ainda mais visibilidade ao aparecer na série Cidade Invisível, da Netflix, despertando o interesse de novos públicos pelo folclore brasileiro.
Moda: A personagem também inspirou fantasias apresentadas em bailes de gala de grandes marcas e eventos culturais.
Educação: Livros modernos e podcasts indígenas usam a lenda para ensinar ciências e manter vivas as memórias ancestrais e a voz dos povos da floresta.
Carnaval: No ano de 2015, a lenda foi mencionada no enredo da São Clemente, "A Incrível História do Homem que Só Tinha Medo da Matinta-Pereira, da Tocandira e da Onça Pé de Boi", uma homenagem ao carnavalesco Fernando Pamplona.
Na música: Aparece em uma peça das "Lendas Amazônicas" de Waldemar Henrique. Matinta é descrita na letra da música "Matinta", da banda brasileira Armahda. É citada em "Águas de Março" de Tom Jobim.
O canto da rasga-mortalha
A Rasga-mortalha é uma coruja chamada cientificamente de Tyto furcata, também popularmente conhecida como Suindara. Seu canto significa apenas uma vocalização natural da ave, mas o folclore popular o interpreta como um mau agouro que anuncia a morte, acreditando-se que se essa coruja cantar sobre o telhado de uma casa ou perto de uma pessoa doente, ela está prevendo que alguém vai morrer.
O nome popular vem do barulho da vocalização da ave, que parece o rasgar de um tecido de mortalha.
A Coruja Suindara é uma grande aliada no controle natural de roedores, caçando ratos em áreas rurais e cidades, trata-se de um animal inofensivo para os humanos e não tem nenhuma relação com o sobrenatural.
Eu fiquei curiosa para ouvir o canto dessa ave e fui procurá-lo no aplicativo Merlin. Confesso que achei o som bastante assustador. Fiquei imaginando como seria escutá-lo durante a noite, no meio da mata. 😱
Caso queira ouvir, estou deixando o link abaixo:
https://merlinbirds.org/species/brnowl
A Matinta Perera é um exemplo de como o folclore brasileiro preserva a memória, as crenças e os costumes de diferentes povos. Ao longo das gerações, mais do que uma história de medo, a Matinta Perera representa a força da tradição oral, mostrando como diferentes povos mantêm vivas suas memórias por meio das lendas.
Foi justamente esse imaginário que inspirou um dos cordéis de Assombrações do Chão Brasileiro – Mulheres que viraram medo e história. Em "O assobio da Matinta Perera", transformei essa lenda em versos, buscando preservar uma das narrativas mais marcantes da tradição amazônica.
Afinal, cada região do Brasil guarda suas próprias histórias, e cada versão ajuda a manter vivo o nosso patrimônio cultural.
E você? Já conhecia a história da Matinta Perera?
Na sua família ou na sua cidade existe alguma versão diferente dessa lenda?
Compartilhe nos comentários. Vou gostar de conhecer outras formas como essa história continua sendo contada pelo Brasil.



Comentários
Postar um comentário
Para garantir um ambiente construtivo, todos os comentários desta página são moderados. Lamento que, atualmente, a destruição prevaleça sobre a edificação em muitos espaços online. Agradeço sua compreensão; comentários desrespeitosos ou não construtivos serão removidos.