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O caminho das monções: do Tietê às minas de Cuiabá


As monções eram expedições fluviais que ligavam principalmente Araritaguaba — atual Porto Feliz — às minas de Cuiabá, transportando pessoas, alimentos, ferramentas, armas, mercadorias e outros recursos necessários à ocupação e ao abastecimento do interior. Elas se desenvolveram sobretudo a partir da descoberta de ouro nos barrancos do rio Coxipó, na região da atual Cuiabá, em 1719, e permaneceram importantes ao longo do século XVIII e ainda nas primeiras décadas do XIX.

A historiografia mais antiga, especialmente a de Afonso Taunay, aproximava muito as "bandeiras" das "monções"; porém, pesquisas posteriores mostram que as monções tinham características próprias, ligadas à circulação fluvial, ao abastecimento, ao comércio, à ocupação territorial e à administração colonial.

As embarcações utilizadas eram grandes canoas escavadas em um único tronco, uma técnica de construção de origem indígena. Eram conhecidas como canoas paulistas e tinham características adequadas aos rios da região.

Uma pesquisa da USP destaca que essas canoas eram menores que as grandes embarcações amazônicas porque precisavam enfrentar rios mais estreitos, obstáculos, corredeiras e trechos nos quais era necessário retirar a embarcação da água.


A viagem

Os viajantes seguiam por terra até Araritaguaba, atual Porto Feliz, às margens do Tietê. Era dali que as grandes canoas, também conhecidas como batelões, eram preparadas e carregadas para a longa viagem.

A localização era estratégica porque o Tietê permitia avançar para o interior do continente. O rio, que hoje associamos fortemente à cidade de São Paulo, corre para o interior e desemboca no Paraná, em vez de seguir em direção ao litoral. Isso fazia dele uma via natural para penetrar no sertão.

As viagens podiam durar cerca de quatro a cinco meses e, de acordo com um estudo da USP, estima-se que o percurso entre Porto Feliz e Cuiabá era de aproximadamente 531 léguas, ou 3.504 km.

A rota era impressionante e, de forma simplificada, o trajeto era: Porto Feliz → Tietê → Paraná → Pardo → Camapuã → Coxim → Taquari → Paraguai → Porrudos → São Lourenço → Cuiabá.

Fonte: Facebook


Havia trechos em que era necessário abandonar o rio e transportar as embarcações por terra; esses trechos eram chamados de varações ou varadouros. Em Camapuã, havia um trecho de aproximadamente 14 quilômetros no qual as embarcações precisavam ser transportadas por terra até as águas da outra bacia.

Outro ponto importante era a época da partida. As expedições costumavam partir em determinados períodos do ano para aproveitar as condições dos rios. Uma fonte acadêmica registra partidas geralmente em março e abril, quando os rios estavam mais cheios; outra descreve a chamada monção de outono-inverno e as condições específicas da rota.

Ou seja: não era simplesmente "entrar numa canoa e seguir o rio".

Era necessário conhecer:

  • o nível das águas;
  • as correntezas;
  • as pedras;
  • as cachoeiras;
  • os períodos adequados para navegação;
  • os pontos de parada;
  • os locais onde seria necessário transportar as canoas por terra.

Os pilotos precisavam ter um conhecimento especializado dos rios.

A Fazenda Camapuã tornou-se um importante ponto de apoio no percurso, pois ficava numa região estratégica e funcionava como entreposto para abastecimento.


Os perigos

A viagem apresentava inúmeros perigos ao longo do percurso, como cachoeiras, corredeiras, saltos, trechos rasos, troncos e outros obstáculos; dificuldade de encontrar água e alimentos; doenças; longos períodos de isolamento; mudanças na paisagem; e a necessidade de transportar as canoas por terra.

Os relatos também mostram uma paisagem que mudava conforme os viajantes avançavam: da vegetação mais florestada do Médio Tietê para áreas de cerrado e, posteriormente, para as paisagens pantaneiras.

Além disso, os povos indígenas da região resistiram à expansão colonial. Entre os grupos que aparecem nas fontes estão Paiaguá, Guaicuru, Kayapó e outros povos. Os Paiaguá, por exemplo, eram reconhecidos por seu domínio da navegação e constituíam uma força importante na região do Pantanal.

Porém, estudos mais recentes ressaltam a importância dos conhecimentos indígenas para a própria sobrevivência e funcionamento das expedições: conhecimentos sobre rios, plantas, alimentação, navegação, construção de canoas e maneiras de lidar com o ambiente.

Os primeiros anos das monções foram especialmente trágicos. Relatos históricos registram que, em 1720, nenhum dos que partiram pelo Tietê teria chegado vivo ao arraial de Coxipó. No ano seguinte, aqueles que conseguiram chegar relatavam a perda de companheiros, bagagens e serviçais.

E é nesse contexto que criei A Sina dos Seis Monçoeiros - um conto do Rio Tietê. Nele, conto o encontro de seis almas penadas que ficaram presas no trajeto de Araritaguaba até o arraial de Coxipó.


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