O Rio Tietê é um lugar cercado de histórias e crenças que nem sempre podiam ser explicadas e, na época das monções, muitas narrativas surgiram e assombravam os navegadores que usavam aquelas águas como estrada rumo ao centro do país.
Em 1788, um proeiro contou a Lacerda e Almeida que mães-d'água habitavam os poços profundos do rio. Anos antes, Juzarte registrara o medo dos antigos diante do "grande bicho" de Pirataraca. O próprio Juzarte também relataria o encontro de sua expedição com uma misteriosa canoa surgida na neblina.
Séculos depois, muitas dessas histórias acabaram se perdendo e já não povoam mais o imaginário popular de muitas das cidades por onde o rio passa.
A Mãe-d'Água
Em 1788, o naturalista e viajante Francisco José de Lacerda e Almeida percorreu o Tietê e registrou uma conversa com um proeiro de uma embarcação monçoeira.
O homem contou que, nos poços mais profundos do rio, existiam mães-d'água encantadas, capazes de levantar grandes ondas e provocar muito barulho, e que teriam causado a morte de homens.
O proeiro dizia isso como algo verdadeiro, embora admitisse nunca ter visto uma delas. Lacerda e Almeida tentou contestar a crença, mas a tripulação ficou tão incomodada que ele acabou deixando o assunto de lado.
A Pirataraca
No Diário da Navegação, escrito por Teotônio José Juzarte durante sua viagem de 1769, aparece o chamado "grande bicho" do poço de Pirataraca, localizado no Tietê, abaixo do salto de Avanhandava.
Juzarte descreve aquele trecho como um lugar profundo, de águas escuras e aspecto fúnebre, que os antigos temiam porque diziam existir ali um grande animal.
Posteriormente, Afonso Taunay reuniu essa referência de Juzarte com relatos mais antigos de Ulrich Schmidl, ajudando a construir a imagem do monstro de Pirataraca como uma enorme serpente. Estudos sobre as representações feitas para o Museu Paulista explicam justamente essa combinação de fontes.
Canoa Fantasma ou Nau Catarineta do Tietê
Juzarte registrou um episódio em que sua expedição teria sido avisada de uma canoa misteriosa aparecendo na neblina.
A embarcação foi vista com seus remadores e passageiros, mas ninguém respondia aos chamados. Juzarte tentou persegui-la, sem sucesso: a canoa desapareceu na bruma.
A história passou posteriormente a ser conhecida como Nau Catarineta do Tietê ou Canoa Fantasma.
A pintura A Nau Catarineta do Tietê, de Nair Opromolla, feita para o Museu Paulista em 1943, teve como principal referência justamente o relato de Juzarte.
O peixe gigantesco do Banharão
Entre as histórias associadas às antigas viagens pelo Tietê está a do Banharão. Segundo a tradição, durante o período das monções, uma canoa navegava por um trecho do rio próximo à foz do Piracicaba quando um animal ou peixe de grandes proporções teria saltado das águas.
O movimento provocou ondas e um forte barulho, mas ninguém conseguiu identificar o que havia causado o acontecimento. Os indígenas que acompanhavam a expedição teriam chamado aquilo de bae nharon, expressão interpretada como "coisa brava".
Segundo essa mesma tradição, a expressão teria dado origem ao nome Banharão, que passou a designar primeiro um poço e uma corredeira do Tietê e, posteriormente, a região conhecida por esse nome. Há inclusive referências geográficas atuais à Serra do Banharão, em Mineiros do Tietê.
Foi pesquisando sobre o Rio Tietê, as antigas monções e as lendas relacionadas a esse período que comecei a reunir informações e histórias que despertaram minha imaginação. Dessas pesquisas nasceu A Sina dos Seis Monçoeiros — um conto do Rio Tietê.


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