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Tereza Bicuda: por que uma comunidade criou essa lenda?

 

Na vila antiga de Jaraguá, no estado de Goiás, havia uma bela moça de corpo exuberante e lábios grossos que levava uma vida desregrada, não visitava a igreja, e praguejava sempre que passava em frente, por isso era muito mal vista na vila extremamente religiosa. Essa moça chamava-se Tereza Bicuda.

Tereza vivia bêbada e, além disso, maltratava demais a mãe, obrigando-a a pedir esmolas, e, como a pobre senhora não queria, elas brigavam muito e a filha a agredia frequentemente. Conta-se que Tereza colocou um freio de cavalo na mãe, montou em suas costas e subiu e desceu a Rua das Flores e, a mãe, depois de tanta humilhação, a amaldiçoou e excomungou. Honestamente, ao imaginar a cena, eu fico horrorizada.

A mãe não suportou por muito tempo e morreu, deixando Tereza Bicuda sozinha em suas maldades.

Com o passar do tempo, Tereza acabou enlouquecendo. Ela andava pelas ruas da vila, gritando e praguejando, assustando os moradores que acreditavam que ela estava possuída. Não demorou muito e Tereza finalmente faleceu.

Ninguém foi ao velório e, para carregar seu caixão, três homens apareceram e um quarto foi obrigado por sua esposa, que disse que, quando era para mexer com ela na rua, ele estava sempre disposto.

O costume era enterrar os defuntos próximos às igrejas (não sei se já foram a Minas Gerais, mas muitas cidades têm cemitérios coladinhos com as igrejas), e Tereza Bicuda foi enterrada junto aos pobres na Capelinha do Rosário, sem cerimônia.

E é aí que a história passa para o sobrenatural: dizem que, por três noites seguidas, à meia-noite, ouvia-se os gritos de Tereza pedindo que retirassem seu corpo da capela. Então, na quarta noite, ela saiu do túmulo e percorreu as ruas gritando desesperadamente. De suas roupas saíam línguas de fogo que queimavam a grama e sapecavam o pelo dos animais que davam o azar de cruzar o caminho do vulto assustador.

Para acabar com esse martírio, os moradores decidiram retirar o corpo de Tereza Bicuda e levar para a Serra de Jaraguá. Encontraram um lugar pedregoso onde enterraram o corpo, puseram uma cruz que rapidamente foi tomada por marimbondos e nunca mais nada nasceu naquele lugar.

Tereza Bicuda nunca mais atormentou os moradores da Vila de Jaraguá, mas contam que desavisados que caminham pela serra já se depararam com uma mulher que segurava um freio de cavalo e que dispara em sua direção, gritando e praguejando.


O que podemos aprender com essa lenda?


Para além da questão moral, ou melhor: imoral, de Tereza Bicuda, a lenda me fez pensar: o que havia por trás da mulher que se tornou uma das figuras mais assustadoras do imaginário de Jaraguá?

Mas, antes de continuar, faço duas ressalvas: não sou psicóloga, logo não pretendo diagnosticar uma personagem cuja história chegou até nós pela tradição oral, e, durante minhas pesquisas, não encontrei nenhum registro de que Tereza Bicuda de fato existiu. 

Prefiro olhar para Tereza como uma narrativa que pode revelar algo sobre comportamento, sofrimento e, principalmente, sobre a sociedade que ajudou a construir essa personagem.

Uma pesquisa acadêmica sobre a lenda segue justamente por esse caminho, discutindo a chamada "loucura feminina", os padrões impostos às mulheres e o contexto cultural em que Tereza foi transformada em uma figura tão assustadora.

Tereza é apresentada como alguém que desafiava praticamente tudo o que a comunidade esperava dela: não frequentava a igreja, praguejava, trabalhava aos domingos e desrespeitava as tradições religiosas.

Isso não diminui a violência atribuída a ela, especialmente contra a própria mãe. Mas mostra que a lenda não apresenta apenas uma mulher cruel: apresenta também uma mulher completamente fora dos padrões aceitos por aquela sociedade.

Historicamente, mulheres que não correspondiam aos comportamentos esperados poderiam ser vistas como loucas ou transgressoras. Diante de uma pessoa real que apresentasse violência, abuso de álcool, isolamento ou mudanças de comportamento, hoje procuraríamos compreender o que poderia estar por trás dessas atitudes, mas, na época, esses comportamentos eram explicados por palavras como "loucura", "possessão" ou "maldade".

No caso de Tereza, essa explicação sobrenatural continua até depois da morte: ela não consegue descansar porque nem mesmo a terra aceita seu corpo. Penso que a lenda diga mais sobre a comunidade do que de Tereza.

Lendas não são apenas histórias assustadoras. Elas também carregam valores, medos, crenças e ensinamentos de quem as conta. Podemos, então, olhar para Tereza Bicuda de outra maneira.

A mulher que desrespeitava a igreja, maltratava a mãe, bebia, gritava pelas ruas e não obedecia às regras da comunidade acaba se transformando em um monstro depois da morte, afinal, ela desafiava as regras e tornou-se uma ameaça para aquela pacata comunidade.

E é justamente isso que torna a lenda tão interessante. Tereza pode ser, ao mesmo tempo, a personagem monstruosa apresentada pela tradição popular e o retrato dos medos de uma sociedade que utilizava histórias para transmitir seus valores, e a pergunta que precisamos fazer não é "quem foi Tereza Bicuda", e sim "por que uma comunidade precisou criar uma Tereza Bicuda"?



Histórias como a de Tereza Bicuda mostram como as lendas podem fazer muito mais do que contar uma história de medo. Elas também preservam crenças, valores, conflitos e os próprios temores das comunidades que as criaram e transmitiram ao longo das gerações.

Essa reflexão também inspirou um dos cordéis de Assombrações do Chão Brasileiro – Mulheres que viraram medo e história. Em "O mal de Tereza Bicuda: A moça que o inferno não quis", a personagem que assombra o imaginário de Jaraguá ganha espaço em versos, trazendo para o cordel não apenas o medo provocado por sua lenda, mas também algumas das questões que tornam sua história tão intrigante.

Afinal, quando uma mulher é transformada em monstro por gerações de narradores, talvez também seja importante perguntar: o que essa história revela sobre aqueles que tiveram medo dela?

Você já conhecia a lenda de Tereza Bicuda?

E o que você acha que existe por trás dessa história?

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