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Tereza de Benguela: a rainha do Quariterê




No século XVIII, Tereza de Benguela liderou o Quilombo do Quariterê, tornando-se uma das figuras mais importantes da resistência negra no Brasil. 

Em sua homenagem, em 2014, foi criada a Lei Federal 12.987, que instituiu o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, celebrado anualmente em 25 de julho. A data coincide com o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, reconhecido pela ONU em 1992.

Mas, quem foi Tereza de Benguela?


Rainha Tereza

Não se sabe ao certo o seu local de nascimento, mas alguns historiadores defendem que, pelo seu nome, “de Benguela”, ela teria nascido nessa região, pertencente ao Reino de Angola na época. Nomear escravizados com o nome do seu porto de partida da África era uma prática comum no período colonial.

Após escapar da escravidão imposta pelo capitão Timóteo Pereira Gomes, Tereza de Benguela passou a viver no Quilombo do Quariterê, também conhecido como Quilombo do Piolho ou Quilombo Grande, onde se tornou esposa de José Piolho, então líder da comunidade. O Quilombo ficava nas fronteiras entre as terras espanholas e portuguesas, estabelecidas pelo Tratado de Madri, de 1750, sendo muito comum que escravizados fugidos penetrassem nas terras espanholas, escapando, assim, das autoridades portuguesas. Hoje, essa região estaria no estado do Mato Grosso, perto do Pantanal brasileiro.

Em meados de 1750, após o assassinato de seu esposo por soldados do Estado brasileiro, Tereza assumiu o posto de líder da comunidade quilombola que na época contava cerca de 100 pessoas de origem indígena e negra.

Ela foi descrita pelos portugueses, de acordo com os Anais de Vila Bela - 1734–1789, como tendo “poder tão absoluto que, não só chegou a mandar enforcar, mas também quebrar pernas e braços e enterrar vivos aqueles que, arrependidos da fuga, queriam tornar para a casa de seus senhores, sem que para semelhantes e outros castigos fosse preciso legal prova. Bastavam leves indícios para serem punidos quaisquer réus de semelhantes delitos” e que “nem machos nem fêmeas eram ousados a levantar os olhos diante dela”.

O quilombo era autossuficiente e voltado para a agricultura, produzindo milho, feijão, mandioca, banana e algodão. A comunidade também dominava o uso da forja e transformava objetos de ferro utilizados contra eles pelos colonizadores em ferramentas de trabalho e armas. Ela instituiu um sistema semelhante a um parlamento,  com casa própria para as reuniões do conselho, onde tomavam decisões em grupo, e coordenou um forte aparato de defesa, o que garantiu a autonomia da comunidade por vinte anos.


A queda do Quilombo do Quariterê

Em 1770, no dia 22 de julho, uma expedição organizada pelo sargento-mor Inácio Leme chegou ao Quilombo e abriu fogo contra as pessoas e famílias que ali estavam. Houve resistência, liderada por Tereza, revidando com arma de fogo e flechadas. Porém, não foi o suficiente e o quilombo foi invadido e destruído pelas forças de bandeirantes. Parte da  população foi assassinada e outra, aprisionada e devolvida para as famílias nas quais estavam submetidas à escravização, dentre as pessoas capturadas está Tereza de Benguela.


Teorias sobe a morte de Tereza de Benguela

Tereza teria fugido para a mata, conduzida pelo seu capitão-mor, João Cavalo, escravo fugido do próprio sargento-mor, ferindo-se num pé ao atravessar um riacho, sendo facilmente capturada e levada ao aquartelamento, à presença do sargento-mor e de lá, levada à prisão, onde teria definhado até morrer.

Outras fontes afirmam que ela teria cometido suicídio para não se submeter novamente à escravidão.

Há ainda quem diga que ela foi assassinada durante a invasão do Quilombo.

Segundo os Anais, após a sua morte a sua cabeça foi cortada e colocada num alto poste no centro do quilombo, como exemplo para todos os que ousassem se levantar contra a coroa de Portugal, coisa que era bem comum acontecer a quem “ousasse” se opor. A exibição pública de cabeças e corpos de pessoas executadas era uma prática utilizada pelas autoridades coloniais como forma de intimidação e demonstração de poder.

Eu, honestamente, prefiro a versão de que ela tenha conseguido fugir, morrendo algum tempo depois, após formar um novo quilombo na região, ao qual deu o nome de Quilombo do Piolho.


Homenagens

A sua importância histórica transcendeu as fronteiras do Mato Grosso e seu nome foi eternizado como um dos maiores símbolos de resistência feminina e negra no Brasil. 

Além da Lei 12.987/2014, mencionada no início desse texto, Tereza de Benguela foi homenageada no carnaval pelas escolas de samba Unidos do Viradouro em 1994, com o samba-enredo: “Tereza de Benguela, uma rainha negra no Pantanal”, ficando em 3º lugar no Carnaval do Rio de Janeiro naquele ano, e a escola de samba de Barroca Zona Sul em 2020,  com o samba-enredo “Benguela… A Barroca Clama a Ti, Tereza”, ficando em 10ª colocação naquele ano.

Em 2021, Mauricio de Souza fez uma ilustração homenageando Tereza de Benguela no projeto Donas da Rua, apresentando a personagem Milena caracterizada como a “Rainha Tereza”, resgatando a importância dessa figura histórica.


Considerações finais

Mais de dois séculos após sua morte, Tereza de Benguela continua sendo lembrada não apenas como líder do Quilombo do Quariterê, mas como símbolo de resistência, organização e luta pela liberdade.

Sua história também nos lembra quantas trajetórias importantes foram apagadas ou pouco registradas ao longo do tempo. Muitas das informações sobre sua vida chegaram até nós por documentos produzidos por aqueles que combatiam os quilombos, o que torna ainda mais valioso o esforço de pesquisadores para reconstruir sua memória.

Ao celebrarmos o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, celebramos também todas as mulheres negras que ajudaram a construir a história do Brasil, mesmo quando seus nomes não foram preservados pelos registros oficiais.

Conhecer figuras como Tereza de Benguela é uma forma de manter viva essa memória e compreender melhor a diversidade de experiências que moldaram o país em que vivemos hoje.


Espero que esta pesquisa tenha ajudado você a conhecer um pouco mais sobre Tereza de Benguela e a importância de preservar histórias como a dela.

Até a próxima!😉



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